Resenha Econômica
Patriarcado, Tecnologia e Acumulação: a Objetificação Feminina no Capitalismo Digital
Lavínia Lacort Oliveira · Luany de Sena Medina de Faria

O Japão reforçou a proibição do silenciamento das câmeras digitais em smartphones a partir de uma alteração, em 2015, na Portaria Japonesa sobre o Desenvolvimento Saudável de Jovens.[1] Essa barreira sonora, contudo, remonta ao ano 2000, quando a prisão da celebridade Masashi Tashiro por tirar fotos não consensuais de uma mulher em uma estação de trem pressionou os desenvolvedores do primeiro celular com câmera do país (o J-SH04) a padronizarem o barulho da fotografia como medida preventiva. A medida evidencia que os impactos da tecnologia não podem ser compreendidos apenas a partir de suas funções técnicas. No entanto, a inovação tecnológica ainda é frequentemente apresentada como um instrumento neutro e que espontaneamente gera progresso social. Essa compreensão tende a ofuscar o fato de que as tecnologias operam em contextos sociais específicos, atravessados por relações de poder. No cenário japonês, isso se traduz em um persistente conflito: enquanto o som obrigatório busca proteger a privacidade, o próprio mercado de tecnologia reage com a proliferação de aplicativos espiões desenhados especificamente para camuflar a tela e burlar o ruído da fotografia. Assim, o som da câmera revela-se menos como uma solução definitiva e mais como um paliativo técnico sobre um problema comportamental e de violência de gênero profundamente enraizado.
Judy Wajcman, em TechnoFeminism, questiona justamente a suposta neutralidade e autonomia do desenvolvimento tecnológico ao argumentar que tecnologia e sociedade não constituem esferas separadas. Para a autora, a ideia de que as inovações seguem uma trajetória linear e independente ignora o fato de que toda tecnologia é concebida em contextos históricos específicos e a partir de interesses, necessidades e valores socialmente determinados.[2] Afinal, as decisões sobre quais problemas merecem solução, quais pesquisas recebem financiamento e quais grupos terão acesso a determinados recursos são também políticas e econômicas. Nesse sentido, os recursos tecnológicos devem ser compreendidos como produtos de relações sociais concretas. Essa dinâmica se alinha profundamente à célebre formulação de Simone de Beauvoir de que “não se nasce mulher, torna-se mulher” — isto é, a compreensão de que o gênero não é um dado biológico ou natural, mas uma construção social e histórica contínua. Sob essa lente, o processo de “tornar-se” e de construir a identidade de gênero na contemporaneidade é materialmente mediado e moldado pelas próprias tecnologias. Ao mesmo tempo, portanto, essas ferramentas influenciam a maneira como indivíduos interagem, trabalham, consomem e moldam suas vivências, participando ativamente da reprodução ou da transformação das relações sociais de poder nas quais foram produzidas.
A regulamentação de dispositivos no Japão, ilustrada pela obrigatoriedade do som do obturador das câmeras, surge como uma tentativa estatal de conter a reprodução de estruturas patriarcais e de violência de gênero. Embora os smartphones facilitem a captação dessas imagens, o ecossistema digital não funciona como um espaço passivo de mera publicação. As próprias plataformas operam sob uma lógica algorítmica que seleciona, amplifica e distribui conteúdos com base no engajamento e na retenção da atenção. Sob essa dinâmica, a espetacularização e a objetificação dos corpos femininos convertem-se em ativos econômicos de alta circulação e monetização. Assim, alinhando-se à perspectiva de Wajcman de que as tecnologias são produtos de relações sociais historicamente situadas, a análise não pode se limitar à eficácia de barreiras técnicas ou ao design das plataformas. Torna-se imperativo investigar as próprias relações sociais e econômicas que tornam a demanda, a mercantilização e a própria burla tecnológica dessas violências não apenas possíveis, mas profundamente lucrativas. Nesse sentido, a contribuição de Friedrich Engels é particularmente relevante, uma vez que permite compreender a desigualdade entre homens e mulheres não como resultado de diferenças naturais, mas como um fenômeno que surge a partir da mudança na estrutura econômica vigente no decorrer dos séculos, em que a ordem material passa a nortear as formas sociais, e sobretudo, põe as mulheres em posição de subjugamento.
Inspirado pelos escritos de Karl Marx e pelos estudos antropológicos de Lewis H. Morgan, Friedrich Engels aponta de forma esclarecedora que a subordinação feminina possui raízes históricas e econômicas, argumentando que nas eras classificadas como selvagem e barbárie, em que ainda não se havia a propriedade privada, as maiorias dos povos reconheciam a “filiação materna”, pois como a poligamia e poliandria eram comuns, somente por meio da mãe era possível distinguir-se os filhos de cada genitor. Por conseguinte, as heranças eram deduzidas por esse tipo de filiação, chamado de direito materno. Entretanto, com os desenvolvimentos no ramo produtivo, a força de trabalho do homem passou a ser capaz de produzir mais do que era necessário para sua manutenção e a da sua família, possibilitando a geração de excedente, o que aumentou as riquezas individuais que ficou concentrada nas mãos daquele que a produzia, o homem, enquanto a mulher era encarregada do cuidado do lar e da criação dos filhos. Dessa forma, aprofundou-se sobre as bases capitalistas a divisão sexual do trabalho. A consequência dessa privatização do excedente em poder somente do homem foi uma modificação na essência dessa divisão de trabalho entre homens e mulheres, já que o trabalho do homem passou a ter uma posição julgada mais importante que o da mulher, tornou-se necessário garantir a transmissão hereditária da riqueza produzida pelo homem, para seu filho legítimo, surge então, a filiação paterna. É a partir desse acontecimento que Engels declara “a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo”[3], visto que marca a passagem do direito materno ao paterno e insere a mulher em uma posição progressivamente subordinada aos interesses patrimoniais do novo estilo de família: a família patriarcal.
As relações de gênero, portanto, surgem como parte de uma determinada forma de organização social voltada para a preservação da propriedade e da herança. Essa organização social intitulada “família”, na sua forma mais primitiva, pode ser descrita exatamente como na origem etimológica da palavra: famulus, que significa escravo, servente, submetido[4], pois era constituída pelo homem-pai (chefe) que possuía poder de vida e de morte sobre a mulher, os filhos (herdeiros) e filhas, e uma certa quantidade de escravos.
Desse modo, deduzindo que o patriarcado possui raízes econômicas, sua permanência ao longo da história pode ser analisada em relação às transformações dos sistemas produtivos e das formas de acumulação. Sob essa perspectiva, as plataformas digitais não criam a objetificação feminina, mas operam sobre estruturas historicamente constituídas, atribuindo-lhes novas formas de circulação, visibilidade e valorização econômica. Um exemplo do impacto tecnológico é a utilização da inteligência artificial (IA) para gerar conteúdos difamatórios e de cunho sexual de mulheres, e até mesmo de meninas, o que alarmantemente vem se tornando comum no Brasil e no mundo, como foi no caso de uma escola particular em Cuiabá, em que imagens de quatro adolescentes e de uma professora foram criadas com a ajuda dessa tecnologia para serem divulgadas em grupos de pornografia nas redes sociais no ano de 2024.[5] Em outro acontecimento recente, um médico ginecologista utilizou óculos com recursos de IA para gravar pacientes durante as consultas.[6]
O caso evidencia que a inteligência artificial não cria a violência de gênero, mas amplia sua capacidade de reprodução. Entretanto, limitar a discussão aos usos individuais da tecnologia mistifica outro aspecto relevante: as plataformas nas quais esses conteúdos circulam dependem da permanência dos usuários, da coleta de dados e da geração contínua de engajamento. Nesse contexto, conteúdos que provocam choque, curiosidade ou excitação tendem a alcançar maior circulação, independentemente de seus efeitos sociais. A objetificação feminina ganha, então, uma nova dimensão de exploração, o meio virtual.
A leitura de Engels permite compreender que a opressão e objetificação feminina não é um fenômeno que surge com as plataformas digitais. Pelo contrário, ela se insere em uma estrutura muito mais antiga, vinculada à consolidação do modo de produção que visa o excedente impreterivelmente. Já Wajcman demonstra que as tecnologias não existem à margem dessas relações, mas são produzidas e operam a partir delas. Nesse sentido, talvez seja insuficiente compreender a objetificação feminina nas redes apenas como a reprodução de valores patriarcais já existentes. Afinal, em plataformas que transformam atenção em lucro, determinadas representações dos corpos femininos parecem adquirir uma função que ultrapassa sua dimensão cultural. A questão, então, deixa de ser apenas como o patriarcado se manifesta no ambiente digital e passa a ser por que essas formas de representação continuam encontrando espaço, visibilidade e valor em um sistema econômico que se apresenta como inovador.
Notas
- Tokyoweekender. Why You Can’t Disable the Shutter Sound on Japanese Phones. The root of the problem is nonconsensual photography. Tokyo, 2024. Disponível em: https://www.tokyoweekender.com/japan-life/news-and-opinion/why-you-cant-disable-the-shutter-sound-on-japanese-phones/. Acesso em: 19 jun. 2026.↩
- WAJCMAN, Judy. TechnoFeminism. Cambridge: Polity Press, 2004, p. 34.↩
- ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Editorial Vitória Ltda, 1964. p. 45-62.↩
- BASSOIS, Miquel. Famulus. Revista Fapol Online Lacan XXI, 2016, disponível em: https://www.lacan21.com/sitio/famulus/?lang=pt-br. Acesso em: 19 de jun. 2026↩
- G1 MT, 2024. Alunos são expulsos após usar inteligência artificial para criar nudes falsos de professora e colegas em escola particular de Cuiabá. Disponível em: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2024/09/25/alunos-sao-expulsos-apos-usar-inteligencia-artificial-para-criar-nudes-falsos-de-professora-e-colegas-em-escola-particular-de-cuiaba.ghtml. Acesso em: 19 jun. 2026↩
- G1 Salvador, 2026. Médico é preso suspeito de usar óculos com câmera para filmar paciente em Salvador. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/07/10/homem-e-preso-em-salvador.ghtml. Acesso em: 15 jul. 2026.↩
