Resenha literária
A marcha para o oeste: a epopéia da expedição Roncador-Xingu
Cláudio Villas-Bôas e Orlando Villas-Bôas
A marcha para o oeste: a epopéia da expedição Roncador-Xingu Vinícius Vieiria Pereira Narrado em forma de diário, o livro dos irmãos Villas Bôas, Orlando e Cláudio, detalha a aventura fantástica dos dois, mais Leornardo, o irmão mais novo, entre os integrantes de uma das mais noticiadas iniciativas do governo de Getúlio Vargas no início dos anos 1940: iniciar o processo de ocupação do norte e de parte do centro-oeste brasileiro, cortando sertões e florestas e a serra do Roncador, em terras até então ainda ocupadas por diversas etnias indígenas do Brasil, ao longo de uma jornada que resultou, no início dos anos 1960, na demarcação da maior reserva indígena do país, o Parque Nacional do Xingu. E isso, graças ao incansável e apaziguador espírito dos três irmãos. Abarcando mais de quinze anos de experiências cuidadosamente registradas em seus diários, a obra traz as aventuras, os perigos, as amizades, as realizações e, especialmente, o incrível encontro com tribos indígenas que jamais haviam tido contato com o homem branco. Levando como lema inabalável a não-violência e o respeito aos indígenas, os irmãos Villa Bôas estreitaram de tal forma as relações com os aborígenes de nosso vasto país que acabaram por ficar mais trinta anos entre eles. A obra traz ainda mapas e registros fotográficos a partir dos quais é possível conhecer os mais diversos personagens que fizeram parte da vida dos autores, além de um registro histórico pormenorizado sobre os principais acontecimentos da época. Mesmo embrenhados na floresta e cortando picadas no sertão, os incansáveis integrantes da expedição não deixaram escapar as notícias que lhes chegavam jogadas do alto pelos pequenos aviões monomotores que serviam de apoio aos aventureiros, como o fim da Segunda Grande Guerra, por exemplo. “Recebemos hoje, a sensacional notícia dos jornais sobre o término da guerra entre os EUA e o Japão. Os primeiros, usando engenho de misteriosa construção e formidável poder destruidor, teriam feito o último render-se incondicionalmente.” (p.96) Citando nominalmente todos os companheiros nesta epopéia, cozinheiros, caçadores, muleiros, sertanejos, operadores de rádio, todas as etnias indígenas com as quais travaram contato bem como os nomes de vários líderes das tribos, e seus familiares, dos quais se tornaram verdadeiros amigos, os irmãos Villas Bôas não deixaram de fora também as personalidades do meio político e administrativo que, mais ligados a eles, tornaram possível a conclusão da jornada.
Vale destacar que, desde o início, os autores deixam claro que entraram para a expedição se fazendo passar por sertanejos, disfarçando assim a origem urbana desses três filhos de uma família da classe média do estado de São Paulo. Desde a criação e organização da expedição, o primeiro dia da marcha, os roteiros realizados, rios e estados do país que foram cruzados, as montanhas que foram vencidas ou contornadas, os acampamentos e pistas de pouco para pequenos aviões por eles construídos, todos esses detalhes fazem parte do emocionante relato dos Villas Bôas. Os perigos, as doenças, a fome e o medo, os mosquitos, as ameaças dos animais selvagens, as chuvas e os dias de calor intenso, bem como a forma serena e respeitosa com a qual eles souberam enfrentar tais adversidades nesses mais de 15 anos de caminhada são narrados com tamanhas intensidade e realidade que criam, no leitor, aquela incontrolável vontade de participar de semelhante aventura. A obra não deixa de salientar, a todo o momento, que, na perspectiva dos autores, o sucesso da expedição levaria, fatalmente, a um resultado que entristecia seus corações e os de todos aqueles que desejam melhor sorte aos indígenas de nosso país. Afinal, a chegada dessa missão a estes rincões do país abriria o caminho aos agricultores, aos garimpeiros e a muitos desbravadores e colonizadores que se tornariam ameaça constante à sobrevivência e preservação das tribos originárias de nosso país. Em meio a este triste destino, nos resta como consolo a certeza de que, a frente dessa jornada, conduzindo como líderes naturais a expedição, os irmãos Villas Bôas conseguiram, num ato heróico, político e que contou com o apoio de grande parte da opinião pública brasileira à época e de alguns intelectuais, salvar as tribos xinguanas, reunindo-as todas nessa magnífica reserva, dirimindo conflitos territoriais e culturais entre as próprias tribos e criando um ambiente de respeito, amizade e diálogo com aqueles que, segundo os próprios autores, eram os primeiros e verdadeiros ocupantes, e porque não dizer, proprietários naturais, de toda essa terra chamada Brasil. Um livro de aventura, de história, de autêntica experiência antropológica, de chocante realidade, que mistura coragem, amizade, solidariedade, respeito, amor incondicional à natureza, aos animais e aos povos originários. Uma leitura obrigatória para todo brasileiro que quiser conhecer um pouquinho mais a história de nosso passado, a grandiosidade da nossa natureza tropical e entender o nosso lugar nessa nação. Mais do que um livro, o compartilhamento de três vidas dedicadas àqueles que foram salvos da extinção sumária, às tribos indígenas de nosso país. VILLAS BÔAS, Orlando; VILLAS BÔAS, Cláudio. A marcha para o oeste: a epopéia da Expedição Rocandor-Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
