Resenha literária
A peste
Albert Camus
Resenha literária Obra: A peste Autor: Albert Camus Vinícius Vieira Pereira A obra ora resenhada, escrita em 1948, rendeu ao seu autor, Albert Camus, o Prêmio Nobel de literatura em 1957. A história se passa em Oran, cidade litorânea da costa da Argélia, no momento em que um surto de peste bubônica toma conta da cidade, obrigando todos habitantes ao isolamento social e ao drama das mortes dos habitantes que aumentam a cada dia. Apesar de se tratar de fatos reais ocorridos na cidade em 1849, quando Oran foi de fato tomada pela peste bubônica que levou à morte quase metade da população da cidade, a data de 1947, indicada como o ano em que os acontecimentos se iniciam, é uma alusão comparativa ao drama vivido pelo autor naquele momento de sua vida, quando atuava clandestinamente como integrante da Resistência Francesa contra o exército de Hitler que se apossou da França. Assim, a peste bubônica é uma analogia com a invasão alemã da França, pois da mesma forma que a primeira, a invasão causa sofrimento, dor, mortes, mas, ao mesmo tempo, mostra a capacidade dos habitantes de se unirem contra a tragédia, o caos e o inimigo estrangeiro. Destaque deve ser dado ao espírito de solidariedade que toma boa parte dos habitantes de Oran durante o flagelo da peste e ao sentimento de medo, desilusão e sofrimento que atinge a todos os envolvidos. Sem deixar de destacar o oportunismo e o egoísmo que insistem em nortear algumas ações individuais, especialmente em momentos de comoção social tão intensa. Centrada no personagem Bernad Rieux, um jovem médico cidadão de Oran, muito dedicado, incansável, preocupado e tomado de um grande sentimento humanista, a narrativa busca interpretar como cada personagem, que aos poucos se aproxima de Bernard Rieux, lida com o surto de cólera e suas conseqüências. Afinal, tendo começado com a morte diária de centenas de ratos cujos corpos se espalhavam pela cidade, a peste avança por sobre os habitantes da cidade, primeiro na sua versão transmissível pelas pulgas e, posteriormente, em sua variante pulmonar, transmissível também entre os próprios infectados. Diante das dificuldades de lidar com a situação, especialmente por ser uma colônia francesa cuja atenção recebida de Paris não era a ideal, Camus relata, por meio de uma narrativa absurdista e também existencialista, como o caos, a incerteza, o desespero vão aos poucos, tomando conta da vida de cada um dos cidadãos trazidos em destaque pelo autor.
Narrando na pessoa de uma testemunha ocular dos fatos ocorridos e conhecendo e apresentando um pouco mais dos habitantes da cidade a cada nova página, o autor traz ao escrutínio alguns dos sentimentos humanos mais profundos, como o amor, a solidariedade, a responsabilidade para com o próximo, o envolvimento com as dores dos outros, o que faz da obra uma verdadeira viagem ao coração e à mente humanos em momentos de grandes flagelos. A partir de relatos desenvolvidos pelos personagens, narrativas, diários e registros oficiais deixados pelos cidadãos e pelos órgãos municipais, Camus busca mostrar a devastação provocada pelo flagelo, bem como o verdadeiro sentimento das pessoas, a história de vida de cada personagem, os dramas pessoais e a disposição de todos em ajudar voluntariamente no controle da pandemia, atuando em diferentes frentes e atividades. Às mortes que se sucedem, as medidas tornam-se cada vez mais repressivas e o isolamento social acaba por afastar todos os cidadãos de Oran do convívio diário com os habitantes da cidade e com os visitantes, os quais ficam impossibilitados de entrar e sair da cidade. À medida que os números de infectados e mortos aumentam, a tragédia toma conta da cidade, dada a incapacidade de atendimento hospitalar para todos os necessitados e de sepultamento dos mortos nos cemitérios da cidade, quando o sistema de utilização de covas coletivas começa a ser adotado. Ao fim do surto de peste bubônica, que durou quase um ano em Oran, quando os registros de mortes começam então a diminuir até cessar, a vida, aos poucos, retoma sua normalidade, e o autor explora o sentimento de alegria, amor, alívio e amizade que toma conta dos habitantes e visitantes da cidade. Ao fim do texto, Camus se identifica como sendo o próprio Bernard Rieux, personagem central, que acompanhou presencialmente todo o drama vivido durante a peste.
