Resenha literária
Bartleby, o escrivão
Herman Melville
Bartleby, o escrivão: preferia não fazê-lo Bruna Cavati Rossi O livro escrito por Herman Melville, escritor e ensaísta estadunidense, apesar de produzido no século XIX, aborda temas que permeiam a sociedade contemporânea. As temáticas na obra podem ser facilmente relacionadas a esses tempos de neoliberalismo, em que depressão, ansiedade e até mesmo Burnout são realidades cada vez mais presentes. Em suas breves páginas, Melville consegue apresentar temas de profunda complexidade. Diferente do usual, o protagonista não é o narrador, e são poucas as suas falas. A história é contada pelo dono do escritório (o patrão), acerca de suas impressões e dilemas com um funcionário tão peculiar. Em seu estabelecimento havia, inicialmente, três empregados, também um tanto diferentes, mas que no geral seguiam o “estereótipo” de um empregado: realizavam o que era pedido, ao menos em parte do dia com grande destreza. A rotina do local estaria por mudar com a entrada de mais um empregado. Alguém que literalmente bateu a porta em um momento oportuno e cuja “bondade” do patrão, sempre frisada por ele próprio (o narrador), concedeu-lhe um emprego. Bartleby era um excelente escrivão, transcrevia documentos rapidamente, ininterruptamente, o que impressionava o narrador. Tudo ocorria normalmente, até que, precisando revisar um documento transcrito por Bartleby, algo feito usualmente com todos os textos, ele (o patrão) convida o escrivão para o ajudar. Como se sabe, não era um convite, mas uma ordem. Contudo, a surpresa veio com a resposta, pois Bartleby “preferia não fazê-lo”. Abismado com tamanha ousadia, e pensando ter se enganado, não recebendo outra resposta, o narrador optou por chamar outro funcionário. Certamente isso não iria se repetir. No entanto, as coisas não mudaram, pois ao convocá-lo novamente, após dias do ocorrido, Bartleby ainda “preferia não fazê-lo”. Os outros empregados também ficavam abismados. Como poderia alguém ter tamanha ousadia? Como poderia alguém não ser solícito ao pedido do patrão? Certamente não deveria continuar ali. Mas as coisas não pararam, pois, após algum tempo, Bartleby também preferia não mais transcrever os textos. Para o patrão-narrador a situação tornou-se insustentável, teria que demiti-lo. Mas como fazer isso com alguém que nada tem? O “pobre patrão” percebeu que o escrivão infortunado estava habitando o escritório, ali estaria a residir. Foi em um dia de domingo, quando ao passar no escritório encontrou Bartleby, o qual informou que estava ocupado no momento pedindo ao patrão para retornar mais tarde. Tudo estava muito estranho, o que poderia ser feito? Tinha que mandá-lo embora, passava dos limites.
O patrão foi, então, demitir o escrivão, e com sua “grande generosidade” ainda lhe pagou mais do que devia. O narrador sentiu-se exitoso, que postura! Ao retornar no dia marcado, com receio, mas acreditando (talvez nem tanto) no cumprimento de sua ordem, abriu a porta e lá estava ele, ainda do mesmo modo. A situação permaneceu e algo precisava ser feito. Foi então que decidiu, ele (o patrão-narrador) sairia de lá, mudaria o escritório de endereço. Tempos depois, as reclamações sobre Bartleby se recusar a deixar o edifício permaneceram e chegaram até ele, que decidiu ter uma conversa com seu antigo empregado. Este ainda estava firme em permanecer no local. Contudo, os demais moradores não tiveram tal compreensão. Chamaram a polícia e Bartleby foi levado preso, muito embora seu crime não se saiba qual foi: será que ousou ir contra as leis que regem o modo de produção capitalista? Violou a propriedade privada? Recusou-se a servir ao capital? A prisão é o local que marca o desfecho dessa obra peculiar. Da trajetória de Bartleby, de onde veio, pouco se sabe, mas há um boato que aqui não irei contar. Apenas penso que se, talvez, antes houvesse ele preferido não fazê-lo, poderia ter sido diferente. MELVILLE, Herman. Bartleby, o escrivão: preferia não fazê-lo. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.
