← Resenhas Literárias
Reunião Literária 2023

Resenha literária

Lolita

Vladimir Nabokov

Por Elóra Cristóvão Travezani3 min de leitura

Lolita Elóra Cristóvão Travezani O livro “Lolita" é uma obra clássica publicada em 1955 pelo escritor russo Vladimir Nabokov. Trata-se de uma história controversa e fascinante, narrada por Humbert Humbert, um prisioneiro que morreu à espera de seu julgamento. Em um manuscrito deixado antes de sua morte, Humbert elabora seu depoimento, no qual confessa e tenta justificar suas ações. Seu objetivo é compartilhar sua perspectiva da história e traçar os caminhos que o conduziram até seu desfecho. Seu relato se inicia na França, onde descreve um trágico episódio vivido em sua infância. Com o passar do tempo, Humbert amadureceu, tornando-se um homem intelectual e financeiramente estável. Ele formalizou, também, um casamento, mesmo que ele mantivesse casos extra-conjugais com jovens meninas. Sua vida começa a mudar após uma separação conturbada com sua esposa, levando a sua mudança para a América do Norte. Após a chegada ao novo continente e uma breve estadia em um hospital psiquiátrico, Humbert acaba em uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos. Seus planos são alterados quando a visita a uma possível moradia se converte num encontro com Dolores Haze, uma criança de 12 anos, filha de sua senhoria. Ao avistar a menina brincando em seu jardim, Humbert é cativado por sua beleza e decide imediatamente permanecer na acomodação, mesmo nutrindo uma aversão a cada detalhe do local, para aproximar-se dela. A partir de então, Dolores, apelidada Lolita, passa a ser considerada a grande paixão da vida de Humbert. O narrador se vê irresistivelmente atraído pela menina, que em sua percepção o seduz. O relato do desenrolar de sua paixão, conta com detalhadas declarações apaixonadas, reflexões sobre o limite daquela relação e esforços do prisioneiro de contextualizar seus atos. Estamos diante, então, de um depoimento no qual vemos os fatos pela ótica do criminoso. Ao descrever seu amor por Lolita, ele alterna entre belas palavras românticas e a obscenidade possessiva. Através de diálogos diretos com o leitor, ele demonstra consciência da transgressão e da patologia, no entanto ele “justifica” os abusos cometidos por meio de seu amor sincero e pelo comportamento da própria Lolita. Dessa forma, o narrador manipula a linguagem para compadecer o leitor e defender sua perversidade. Ao longo da leitura, fica clara a utilização de Humbert de sua erudição para criar um véu em sua narrativa, transformando seu depoimento em uma história de romance. O leitor, assumindo o papel de júri do prisioneiro, tem uma visão enviesada e não confiável dos fatos. Esta distorção é inerente

ao criminoso, que tendo consciência de sua culpa, busca mascarar a verdade, de si mesmo e dos leitores. Por mais que este livro seja construído como um romance, não deve ser interpretado apenas dessa maneira. Trata-se, como esclarece o prólogo, do monólogo de um prisioneiro, uma visão unilateral de um crime complexo. Na minha opinião, a tendência de interpretação desta obra como um romance reflete nossa lente social. Nela mesmo sendo um homem doente e moralmente questionável, sua riqueza, boa aparência e renome intelectual não são características que associamos diretamente a um pedófilo e abusador. Humbert encontra legitimidade em sua posição e eloquência, fazendo com que sua versão seja prontamente aceita, enquanto Lolita é retratada como oportunista depravada que supostamente o seduz para escapar da vida que levava. A trama, hipnoticamente incômoda, se encerra deixando-nos ávidos pela perspectiva de Dolores sobre os acontecimentos. Enquanto suas dores e anseios permanecem em mistério, somos testemunhas apenas da criação e morte da Lolita, essa fantasia distorcida criada pela paixão sexual de Humbert. No entanto, a verdadeira essência de Dolores permanece enigmática, uma incógnita que ansiamos desvendar. NABOKOV, Vladimir. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. 1 ed. Rio de Janeiro: O Globo, 2003