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Reunião Literária 2023

Resenha literária

O Velho e o Mar

Ernest Hemingway

Por Henrique dos Anjos Moura4 min de leitura

O Velho e o Mar Henrique dos Anjos Moura Simples, tocante e inspirador. Esses são alguns dos inúmeros adjetivos que poderiam ser utilizados para falar sobre O Velho e o Mar, uma obra prima da literatura contemporânea. Escrito pelo célebre Ernest Hemingway em 1951 e publicado em 1952, esse clássico foi o responsável por render ao estadunidense o Prêmio Pulitzer de 1953 e contribuiu para que também recebesse o aclamado Prêmio Nobel de Literatura em 1954. É amplamente considerada a maior obra de Hemingway e sua fama foi um dos motivos para o autor ser tido como um ícone da literatura universal. Com tantas honrarias no currículo, pode-se pensar que o livro é extremamente complexo, com dezenas de personagens, universo gigantesco e um plot twist atrás do outro, mas a sua beleza está justamente em subverter tudo isso. Santiago é um velho pescador que vive um verdadeiro drama: ele está há 84 dias sem apanhar um peixe sequer. A situação é tão crítica que Manolin, seu grande amigo e companheiro de pescarias, é impedido por seus pais de continuar a acompanhar Santiago, dizendo que o velho é azarado. Todos os amigos e moradores da região reconheciam o esforço do velho e sentiam pena dele. Entretanto, Santiago não se dá por vencido. No 85º dia, o pescador, com a ajuda do seu jovem aprendiz, apanha as redes, o anzol e as iscas, coloca o esquife na água e decide partir sozinho para o mais longe que já tinha ido no mar. Horas após a partida, parece que o azar persiste, pois nenhuma de suas iscas dá o menor sinal de movimento. Porém, em certo momento, o velho sente uma das linhas tensionar, e ele nem poderia imaginar que aquele seria o maior peixe de toda a sua vida. O pano de fundo de todo o livro é a relação entre o homem e a natureza.Tanto o protagonista como o gigantesco espadarte passam a maior parte da obra presos um ao outro por uma linha de pesca, e é magnífico ver como essa ligação inicialmente física se expande para uma conexão emocional e quase espiritual. Apesar da dura batalha que é travada entre Santiago e o peixe, a todo momento é explícito o respeito absoluto do pescador pelo animal, o chamando de irmão e declarando que o ama ao longo do livro. Na minha interpretação, até a forma como o enorme peixe, descrito como tendo por volta de 6 metros, conduzia de forma serena toda a disputa, contra um idoso com poucos recursos e um barco pequeno, demonstra como havia respeito de ambos os lados. Mesmo após 84 pescas fracassadas, o velho novamente estava em alto mar, certamente porque aquelas águas já haviam virado o seu lar e amava aquele ambiente. Outro tema que chama a atenção na obra é o orgulho. Ao decorrer das páginas, é possível perceber que a motivação para Santiago apanhar aquele grande peixe não era por dinheiro ou fama, mas simplesmente porque ele era um pescador, isto é, essa era a essência dele. O velho tinha nascido

para pescar e agora que ele tinha encontrado o peixe mais belo que jamais vira, não podia se dar ao luxo de desistir. Ele tinha chegado no ápice da sua existência. Por mais que a idade, os ferimentos e a falta de suprimentos o prejudicassem na disputa, ele foi perseverante até o fim, de forma que quando lhe faltaram forças, foi sustentado pela sua garra e determinação. A reflexão que fica é: o que nos faz vibrar? pelo que nós iríamos até o limite? essencialmente, quem nós somos? Engana-se quem pensa que estou falando de meritocracia. Estou falando de um homem com tamanha convicção que estava disposto a dar a sua vida por causa de um peixe. Que mesmo talhado por cortes e com dores insuportáveis após vários dias de batalha, é retratado em vários momentos com movimentos e atitudes grandiosas, como se o seu orgulho e vontade de pegar aquele peixe o fizessem transcender. E o mais bonito é que, mesmo com tanto sofrimento, Santiago saboreia toda a batalha, “dialogando” com o seu adversário, o elogiando, o admirando. Ele há tempos não devia se sentir tão vivo e a última frase da obra demonstra como foi recompensador para ele toda essa trajetória. Gostaria de concluir dizendo que esse livro definitivamente não é para todos. Uma obra que se passa quase que inteiramente sem diálogos, altamente descritiva, com apenas um cenário e sem muitas reviravoltas. Não é o tipo de leitura que estamos acostumados ou que cai nas graças de qualquer um. Mas se você se permitir sentar naquele barco junto com Santiago e imergir com ele nessa jornada, tenha certeza que aproveitará bastante de uma das mais profundas leituras da sua vida. HEMINGWAY, Ernest. O Velho e o Mar. Tradução de Jorge de Sena. 1. ed. Lisboa: Livros do Brasil, 1956.