Resenha literária
Torto Arado
Itamar Vieira Júnior
Resenha Literária Torto Arado por Itamar Vieira Júnior Isadora Faé Pacca Amaral Ancestralidade, misticismo e luta pela terra. Essas são as palavras chaves do livro “Torto Arado”, publicado em 2019 de autoria do geógrafo baiano Itamar Vieira Júnior, o que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2020. O livro começa narrando a história de Bibiana e Belonísia que, quando crianças, estavam se aventurando nos pertences da avó e se depararam com uma faca, e um acidente com o objeto cortante uniu ainda mais as duas irmãs. O livro acompanha, então, o crescimento delas, que são filhas de dois trabalhadores da fazenda Águas Negras, localizada na região da Chapada Diamantina, situada no centro da Bahia, palco de muitos conflitos por causa da mineração de ouro e diamantes e receptora de milhares de escravos africanos. Zeca Chapéu Grande, o pai das meninas, é uma espécie de líder comunitário da fazenda, cujos trabalhadores são todos descendentes de escravos e criaram laços muito fortes entre eles e, também, para com a terra que cultivam. Por ser curador, Zeca recebia os vizinhos no quintal de sua casa de barro para o jarê, prática religiosa de matriz africana que, no Brasil, ocorre exclusivamente naquela região. Com essa vivência, além de acompanharem de perto o trabalho do pai e da mãe, Bibiana e Belonísia também criaram laços muito fortes com a comunidade e com a terra. Observaram com estranheza o fato dos patrões, os donos da terra, visitarem a fazenda poucas vezes por ano e proibirem seus pais de construírem casas de alvenaria ou de venderem o que produziam até mesmo em seus quintais. Com o desenvolver do livro, não só a história das irmãs é contada: o leitor acompanha, também, o sentimento de pertencimento que cresce entre os moradores e trabalhadores da fazenda Águas Negras, que por fim se reconhecem como quilombolas e percebem a situação análoga à escravidão que vivem. Itamar Vieira Júnior desenvolve a narrativa com muita fluidez e propriedade, até por ser doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA com estudo sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste e por ser servidor do Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Itamar não descreve com exatidão certos aspectos da história, o que aguça a curiosidade do leitor, por exemplo, por não detalhar com exatidão a época em que se passa a história, o leitor pode concluir que, na verdade, a história pode se passar, infelizmente, nos dias atuais. A luta pela terra ainda é muito presente no Brasil, que carrega um passado escravocrata e patriarcal, elemento também muito presente no livro. Apesar de recente, a obra certamente é um clássico.
