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Reunião Literária 2023

Resenha literária

Um amor que acende a lua

Rubem Alves

Por Arthur Buffon Rodrigues Viana5 min de leitura

Um amor que acende a lua1 Arthur Buffon Rodrigues Viana Interessei-me por esse livro no momento em que li sua septuagésima terceira página. Rubem narra: “É na escuta que o amor começa. E é na não escuta que ele termina”, admito que criei expectativas irreais sobre esse livro, logo quando comecei sua leitura me desapontei. Mas o não esperado, mesmo a quebra de expectativa, novamente me envolveu ao livro. No entanto, acho que o primeiro ponto a aqui elencar é sobre a beleza do livro, uma beleza singela mas genuína. Um amor que acompanha as fases da lua, vinte e nove crônicas divididas pelos quatro períodos lunares. As cores da capa e da contra capa não exageram mas contemplam o luar. Pequeno em relação aos livros que costumo ler, mas em suas poucas páginas sobre o amor foi capaz de me entreter mais que muitos grandes casos de paixão que tive. Seu charme fica entre as divisórias do livro com impressões da lua, e os momentos de citação, onde os poemas quebravam a estrutura do texto e trazem um alívio melódico na leitura, certamente mais um estratagema no texto para encantar quem o lê. Retomando donde comecei, a escolha desse livro definitivamente partiu de uma percepção que hoje considero infantil do amor. Rubem mais vivido que eu já apontava em sua contracapa: “o poeta Robert Frost sem ter tantas namoradas, namorou a vida em cada momento”. Nesse livro o amor não é tão somente um amor de romance e sexual, aqui e como bem cita Frost é um caso de amor pela vida. Mas independentemente disso, ainda assim, aqueles que, assim como eu, enfrentam desilusões amorosas e querem se preparar para viver o amor em suas mais diversas peles, recomendo que leiam este livro. Uma coisa é certa, não foi contradito que a escuta e o amor são dependentes um do outro. Muito menos que as pequenas faces do amor não são reveladas nos capítulos, e por isso “se eu fosse você…” ainda é minha crônica favorita. Quando o comprei, comprei dois, dei de presente ao meu melhor amigo. Isso porque, Lucas tinha um péssimo hábito de se envolver com homens de mesmo perfil, digo que ele não tem um tipo e sim um padrão. Todos esses relacionamentos, um total de 3, que vi meu amigo entrar e se machucar me fizeram temer o fim. Ainda na sua contracapa Rubem propõe: “O amor é a vida acontecendo no momento: sem passado, presente puro, eternidade numa bolha de sabão”. Chorei, quando li essa frase logo pensei no futuro, e ele? Todas as bolhas de sabão estouram, como estaria sem ele? Estou rememorando toda essa narrativa, sei que parece apenas prolixidade, mas o que quero é ressaltar a importância do pensar. Quando li “Pipoca”, entretido nos diversos significados que algo tão simples 1

teria, percebi dentro das conclusões de Rubem a oportunidade de enxergar o que estava na minha frente, e que definitivamente Lucas não havia enxergado. Quando o fogo te provoca, ou você se transforma ou vai continuar como está, e eu definitivamente mudei, infelizmente não fui capaz disso sozinho, mas agradeço muito a minha psicanalista Dulce Braga por me acompanhar nesse processo. E não se preocupem, Lucas finalmente achou alguém que o ame e que ele possa amar sem ter medo do calor que sempre se aproximava dele. Foi no “Sermão das Árvores” que me deparei com uma das reflexões mais simples mas que mais rápido me tiraram um singelo sorriso, quando Rubem comenta sobre Caeiro. Este que diz “pensar é estar doente dos olhos”. Como não enxerguei isso até que me fosse dito? Ele comenta que a insatisfação com o que se vê é o que nos leva a pensar. Quando no parágrafo anterior comentei sobre lágrimas, durante minha leitura, fui consumido pelas percepções de Rubem, o temor do fim partia de uma inquietação sobre o que eu vivia e dessa forma pensei. Mas, de toda maneira, o fim chegou, não que eu esteja condenando todo os amores a uma sentença de morte, às vezes a bolha pode ser reforçada com mais uma camada de sabão, ou apenas se quando o estouro vier, se a bagunça não for tão grande, uma nova possa ser assoprada em conjunto. Mas o que quero trabalhar a seguir é com os comentários sobre as memórias. Gostei do livro como um todo, e das reflexões, mesmo que quem as leia não concorde, são todas válidas para se pensar sobre. Estas poucas crônicas referidas são apenas as minhas favoritas. Gostaria de terminar com uma última, com um nome um pouco sombrio mas condizente, já que tratar de lembranças pode ser algo perigoso. O capítulo “O cemitério” trata das memórias, e da psicanálise. Nesse percurso, entre memórias e o tratamento psicanalítico é que eu pude encontrar um dos meus maiores alívios. Entender que nem todas as memórias precisam ser resgatadas e resolvidas, que se algo que te machuca e já ficou no passado você pode deixá-lo lá, e não só isso que se não ficou o esforço deve ser de deixá-lo para trás, para mim, foi momento de desilusão. Rubem alertou-me: “Fala-se de ‘boa memória’. Não se fala de ‘bom esquecimento’, como se esquecimento fosse apenas memória fraca. Não é Não. Esquecimento é perdão, o alisamento do passado, igual ao que as ondas do mar fazem com a areia da praia durante a noite”. Como podem ver pela enorme citação que fiz no parágrafo anterior, a escrita do texto é simples, fluida e fácil de se visualizar. Vale a pena ler O amor que acende a lua de Rubem Alves. Mas concordo com um comentário que li na internet, talvez O amor que ascende à lua fosse um pouco mais malicioso, mas quem sou eu para discutir com tão célebre autor.